quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Rio Meu


Sento-me e olho-te com ternura. Foi nas tuas margens, Tejo, que a minha vida mudou. Nessas margens onde aprendi que o mundo é muito maior que a herdade onde cresci. Foste tu que me mostraste o caminho da imensidão, a direcção do mar. Tu, sim tu, que albergas peixes, patos, barcos, que em ti tens vida e ensinas a viver, a querer, a lutar. Foi nas tuas lezírias que cruzei a minha infância, brincando com os teus afluentes. Foi sob a tua vigilância permanente que fiz e desfiz amizades, que me aventurei nos prados já distantes de casa. Foi em ti, Tejo, que eu aprendi o amor, esse aperto no peito, essa liberdade da alma. Foste tu que me deste um homem, que me casaste, que me permitiste ser feliz. Esse homem já cá não mora, disse que me esperaria, para não ter pressa. Mas tu, Rio, ainda moras neste quadro, nesta parede da casa que apadrinhaste. Tu e a felicidade. Eu e a saudade...


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Hora do Diabo



Daniel desliza cauteloso por entre as árvores. Embrenhado na floresta, segue de longe o ponto luminoso de uma lanterna, ténue, que apenas se distingue. À sua volta, a escuridão absoluta envolve-o e protege-o. De repente, a luz detém-se. Daniel aproxima-se, sem fazer qualquer ruído e esconde-se atrás de um arbusto. Numa clareira, um vulto move-se, recolhendo pequenos pedaços de lenha. Daniel vem seguindo aquele vulto desde a cidade. O riscar de um fósforo perturba o negro da noite e uma fogueira nasce, a medo. Um rosto revela-se e Daniel solta um grito abafado. Não é possível! O vulto afasta-se e tira uma galinha preta de um saco. Com uma destreza impressionante e sem qualquer ruído, uma lâmina corta o pescoço da galinha e deixa-a sangrar na fogueira. Daniel faz um esforço para aguentar o estômago. Ajeita-se no arbusto e fita aquele rosto, que já viu tantas vezes. De repente os seus olhares cruzam-se, por breves segundos, na escuridão. Foi descoberto. Daniel começa a correr, assustado, e tropeça num tronco, caindo no chão. Um ramo pontiagudo trespassa-lhe o peito. Agora é Daniel quem sangra. Faz um esforço para se levantar, mas não é capaz. A vista tolda-se, um vulto aproxima-se, a vida foge-lhe. "Não devias ter vindo aqui", diz-lhe uma voz doce. Daniel e a aflição de um gemido. Não é capaz. As forças abandonam-no. Lentamente, morre.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Arranca!



Um xaile azul. Numa qualquer rua de Alfama, chama-me a atenção um xaile azul, a enfeitar uma varanda. Talvez me chame a atenção pelo azul garrido, forte, a marcar a sua posição sem arrogância. Pergunto-me quem viverá ali. «Uma fadista talvez...» Afasto-me um pouco e espreito para dentro da casa. Através da janela consigo ver algumas peças de porcelana, de um padrão complexo que harmoniza com as cortinas de um modo perturbador. «Alguém com gosto arrojado», penso. «Alguém que outrora teve o mundo como quis, que o gozou e aproveitou, que não teve medo de ser diferente». Perco-me por momentos e tenho dificuldade em recordar-me para onde ia. Olho uma vez mais para o xaile, em jeito de despedida, em jeito de obrigado, e vejo uma figura na varanda. Calções, camisa de alças amarelada pelo uso duvidoso, bigode aparado e a gritar para o prédio em frente:
-"Ó Sérgio, quando é que me pagas o que me deves?"
Um gajo de Alfama... De repente lembrei-me para onde ia, e até ia com pressa... Arranca!

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Aninhada


Já está! Depois de muitas horas de sofrimento solene, estão cá fora os nove. Lia pode agora recostar-se, enquanto os gatinhos se atropelam, cegos, para saciar a fome. A mãe orgulhosa fecha os olhos de cansaço. Volta a abri-los e observa a ninhada, na sua fragilidade, a descobrir a vida. Uma onda de tristeza invade-a de súbito, transformando-se aos poucos em desespero. Lia ouviu os donos e sabe que este momento é efémero. É injusto para aquelas almas que ainda nem viram a sua progenitora, mas lá no fundo compreende. São muitos, os donos não podem cuidar de todos. «Sê positiva, sempre cuidaram bem de ti, também irão garantir o bem estar de todos eles», pensa enquanto os continua a observar, mas Lia é mãe, não se quer separar de nenhum. O olhar detém-se na cria mais próxima, curiosamente a última a sair, e que tanto trabalho lhe deu. Lia vê nela uma paz diferente, um sossego que a tranquiliza, uma inocência que perdurará. Com toda a gentileza de uma mãe, aconchega-o com a pata. «Tu não... Tu ficas.»