Sento-me e olho-te com ternura. Foi nas tuas margens, Tejo,
que a minha vida mudou. Nessas margens onde aprendi que o mundo é muito maior
que a herdade onde cresci. Foste tu que me mostraste o caminho da imensidão, a
direcção do mar. Tu, sim tu, que albergas peixes, patos, barcos, que em ti tens
vida e ensinas a viver, a querer, a lutar. Foi nas tuas lezírias que cruzei a
minha infância, brincando com os teus afluentes. Foi sob a tua vigilância
permanente que fiz e desfiz amizades, que me aventurei nos prados já distantes
de casa. Foi em ti, Tejo, que eu aprendi o amor, esse aperto no peito, essa
liberdade da alma. Foste tu que me deste um homem, que me casaste, que me
permitiste ser feliz. Esse homem já cá não mora, disse que me esperaria, para
não ter pressa. Mas tu, Rio, ainda moras neste quadro, nesta parede da casa que
apadrinhaste. Tu e a felicidade. Eu e a saudade...
Uma parceria que nasceu ao sabor de um Pão de Deus para adoçar a passagem dos dias! Um conto que nasce de uma foto! Uma fusão que se pretende libertadora, inspiradora, reflexiva e essencialmente muito feliz! Boas leituras...esperamos por ti!
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Hora do Diabo
Daniel desliza cauteloso por entre as árvores. Embrenhado na
floresta, segue de longe o ponto luminoso de uma lanterna, ténue, que apenas se
distingue. À sua volta, a escuridão absoluta envolve-o e protege-o. De repente,
a luz detém-se. Daniel aproxima-se, sem fazer qualquer ruído e esconde-se atrás
de um arbusto. Numa clareira, um vulto move-se, recolhendo pequenos pedaços de
lenha. Daniel vem seguindo aquele vulto desde a cidade. O riscar de um fósforo
perturba o negro da noite e uma fogueira nasce, a medo. Um rosto revela-se e
Daniel solta um grito abafado. Não é possível! O vulto afasta-se e tira uma
galinha preta de um saco. Com uma destreza impressionante e sem qualquer ruído,
uma lâmina corta o pescoço da galinha e deixa-a sangrar na fogueira. Daniel faz
um esforço para aguentar o estômago. Ajeita-se no arbusto e fita aquele rosto,
que já viu tantas vezes. De repente os seus olhares cruzam-se, por breves
segundos, na escuridão. Foi descoberto. Daniel começa a correr, assustado, e
tropeça num tronco, caindo no chão. Um ramo pontiagudo trespassa-lhe o peito.
Agora é Daniel quem sangra. Faz um esforço para se levantar, mas não é capaz. A
vista tolda-se, um vulto aproxima-se, a vida foge-lhe. "Não devias ter
vindo aqui", diz-lhe uma voz doce. Daniel e a aflição de um gemido. Não é
capaz. As forças abandonam-no. Lentamente, morre.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Arranca!
Um xaile azul. Numa qualquer rua de Alfama, chama-me a atenção um xaile azul, a enfeitar uma varanda. Talvez me chame a atenção pelo azul garrido, forte, a marcar a sua posição sem arrogância. Pergunto-me quem viverá ali. «Uma fadista talvez...» Afasto-me um pouco e espreito para dentro da casa. Através da janela consigo ver algumas peças de porcelana, de um padrão complexo que harmoniza com as cortinas de um modo perturbador. «Alguém com gosto arrojado», penso. «Alguém que outrora teve o mundo como quis, que o gozou e aproveitou, que não teve medo de ser diferente». Perco-me por momentos e tenho dificuldade em recordar-me para onde ia. Olho uma vez mais para o xaile, em jeito de despedida, em jeito de obrigado, e vejo uma figura na varanda. Calções, camisa de alças amarelada pelo uso duvidoso, bigode aparado e a gritar para o prédio em frente:
-"Ó Sérgio, quando é que me pagas o que me deves?"
Um gajo de Alfama... De repente lembrei-me para onde ia, e
até ia com pressa... Arranca!
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Aninhada
Já está! Depois de muitas horas de sofrimento solene, estão
cá fora os nove. Lia pode agora recostar-se, enquanto os gatinhos se atropelam,
cegos, para saciar a fome. A mãe orgulhosa fecha os olhos de cansaço. Volta a
abri-los e observa a ninhada, na sua fragilidade, a descobrir a vida. Uma onda
de tristeza invade-a de súbito, transformando-se aos poucos em desespero. Lia
ouviu os donos e sabe que este momento é efémero. É injusto para aquelas almas
que ainda nem viram a sua progenitora, mas lá no fundo compreende. São muitos,
os donos não podem cuidar de todos. «Sê positiva, sempre cuidaram bem de ti,
também irão garantir o bem estar de todos eles», pensa enquanto os continua a
observar, mas Lia é mãe, não se quer separar de nenhum. O olhar detém-se na cria
mais próxima, curiosamente a última a sair, e que tanto trabalho lhe deu. Lia
vê nela uma paz diferente, um sossego que a tranquiliza, uma inocência que
perdurará. Com toda a gentileza de uma mãe, aconchega-o com a pata. «Tu não...
Tu ficas.»
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