quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O Avesso da Minha Pele


- És tão bonita! – disse ele ao olhar para o meu corpo nu.
Naquele último e derradeiro momento de prazer tudo era doce. Maior que o mundo. Que o fim de todas as coisas.
O toque. O cheiro. O beijo. O desejo.
Ainda sem me tocar já o meu corpo se dava aos seus pensamentos como que adivinhando o caminho já desenhado tantas vezes e atalhado tantas outras, contorcendo-se em movimentos de uma sensualidade quase imaculada.
‘Devo levá-la comigo nesta loucura?’, pensou ao olhar-me nos olhos.
‘Quero-te tanto’, responderam eles.
A pressão daquele corpo forte sobre o meu peito fez-me tremer. ‘Huuumm’.
Nada era proibido, só já não era tão consentido…e entregámo-nos!
Sentia o teu corpo tremer quando me abraçavas!
Um casaco…uma camisa…as calças…a liga. De repente toda a camada de pele falsa que protegia os nossos corpos estava espalhada pelo chão e os nossos corpos, nas mãos um do outro.
Trazias contigo o cheiro exótico de uma paixão de pele! Tudo em ti era energético, forte, envolvente e sentia-me mendigar por ti e cada curva do teu corpo!
Chamavas por mim, quente e livre…assim me entreguei.
Com a aurora veio o sabor amargo do fim quando os teus lábios apenas me disseram
 ‘bom dia’.

 Foto e conto por Rita

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Domingo



É Domingo. E aos Domingos é dia de piquenique ao ar livre.
-"Despacha-te, Alberto, já tenho o farnel pronto!"
-"Já vou!"
Alberto está a vestir o fato domingueiro.
-"Ó Alzira, anda cá ver se me arranjas a camisa."
Alzira abana a cabeça, resignada, e entra no quarto.
-"Ui, estás todo janota. Isso é para quem?"
-"Ora, para quem é que havia de ser, para ti meu couratozinho!"
-"Estás-me a chamar gorda?! Estás igualzinho ao dia em que me enganaste e me levaste ao altar!"
-"Se fosse hoje...", murmura Alberto, enquanto vai buscar a gravata.
-"Parece que vais a um casamento. A mim não me enganas tu, todo arranjadinho por causa da piolhosa da Odete", resmunga Alzira a caminho da cozinha.
É verdade que a Odete já foi piolhosa, mas de há uns anos para cá está muito mais asseada, até já toma banho duas vezes por semana. Alberto sorri enquanto faz o nó da gravata. Devia era ter casado com a Odete em vez desta bruxa!
-"Alzira, onde é que está o meu chapéu?"
-"Pergunta à Odete!"

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

DMT


Silêncio. Já todos dormem menos eu, que não tenho sono. Deitado na cama de rede, tento ler, mas não consigo focar as letras. "O efeito ainda não passou. Talvez agora me consiga concentrar." Fecho os olhos com força. Milhões de pontos de luz movem-se aleatoriamente e esforço-me por lhes dar forma, figura, sentido. Não consigo. "Que desilusão..." Levanto o braço e observo as costas da mão. "Lá estão elas!" Um movimento de luz percorre-me o braço, contorna-me os dedos e volta a sair pelo outro lado. Afinal não são formigas, é apenas luz, uma irradiância que contrasta com a da manhã. Sorrio, é aura. Foco-me nos nós dos dedos. Formam-se números. "Devia apontá-los e jogar na lotaria", penso. Mas alguns têm mais que um dígito, não faz sentido. "Que estupidez!" Volto a olhar a mão. A energia ainda flui, lenta, credível. Olho com ternura uma parte de mim que desconhecia. Tudo nas últimas doze horas parece surreal. A porta abre-se de mansinho.
 -"Já te sentes melhor? Queres um sumo de limão?"
 -"Não então, este livro vende-se em todo o lado."
 -"Ok... vou buscar o sumo."


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O Hóspede



Sebastião não sabia que se chamava Sebastião. Não sabe a sua idade. Não sabe quem é a sua família nem porque não existe com ele. Sebastião vive na rua. Todos os dias percorre quilómetros de cidade pedindo comida e revolvendo o lixo. Muitas vezes passa fome, que isto agora não está fácil para ninguém. Sebastião vive na rua, mas não é um sem-abrigo. Tem uma casa, em ruínas é verdade, mas que o protege da água que cai do céu. Há quem diga que ele é livre, mas Sebastião não sabe o que é a liberdade. No entanto, conhece bem a amizade e até tem um amigo, o André, um hóspede que lhe apareceu em casa há uns dias. Deram-se logo bem, preencheram espaços vazios há muito... Sebastião gostava que André não fosse só um hóspede, estremece de cada vez que o vê sair pela porta sem porta. Ele já saiu há várias horas, mas Sebastião também não sabe o que são horas. Foi há muito tempo, o que o deixa impaciente. Está muito frio, a casa em ruínas não é lá muito bem isolada, mas pelo menos não se molha. Passos lá fora, só pode ser ele.
-"Sebastião, estás aí rapaz?"
-"Béu!"

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Solidão Acompanhada



Diz-me que sou louca por amar.
Mas não me consigo impulsionar sem ti. As impulsões que faço são como quem bebe para esquecer. Esquecer a dor que é existir sem ti. Lembrar-me que há vida além de ti. Que eu existo além de nós. Que eu existo dentro de um ser invulgar, forte e sensível por quem te apaixonaste, e a quem te entregaste num momento no tempo que nele se afundou para sempre.
Não sei o que sobrou de nós em ti.
Em mim sobra ainda um espaço enorme. Sobra uma saudade que me atropela sem piedade. Sobra uma esperança inútil. Uma fístula que não fecha. Uma mágoa…
…ainda sobras tu.
Diz-me que sou louca por te amar!

Foto e conto por Rita

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A Vizinha



- Ó Maria Alcina, estás melhor dos rins?
- Na mesma.
- Anda a gente a gastar um dinheirão em comprimidos e não fazem nada. Olha a minha vizinha, coitada, que continua com a boca uma lástima.
- Benza-a Deus.
- Até assusta… Luís Miguel, anda para ao pé da avó, se faz favor.
[…]
- Tenho agora lá em casa um ferro de engomar que é uma maravilha. Ofereceu-mo o meu mais velho.
- Ai sim?
- Diz que é de caldeira. Aquilo engoma que parece manteiga. Philips!
- Ah, é bom…
- Bem melhor que o da minha vizinha, que veio armar-se com o dela. Mas não é de caldeira!
- Pois…
- É… Luis Miguel, ainda vais cair à água, raios partam o miúdo. Não te volto a chamar!
[…]
- Ó Maria Alcina, então e o Senhor Charmoso?
- Oh, não sei nada dele.
- Mas sei eu! Tenho-o visto a cirandar lá na minha rua. Anda muito amigo da minha vizinha.
- A sério? Conhecem-se?
- Abre-me esses olhos, mulher! Achas que ela tem a boca de lado porquê? Àquilo, na minha terra, chama-se galdéria!
- Ah!
- Brincas… Ó Luis Miguel, já estás dentro de água, meu cabrão! Espera que já aí vou. Nem sabes de que terra és!…

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Derradeiro Olhar do Lince


Rogério pousa o estojo no chão e aproxima-se da falésia. Ao largo baloiça suavemente um iate. “Ali está”, murmura. Abre o estojo que lhe entregaram uma hora antes. Lá dentro, em várias peças, está uma espingarda de alta precisão, topo de gama. “Com um brinquedo destes, deve ser peixe grande”, pensa, enquanto a monta. Há muito que não lhe confiavam uma missão e só aceitou com a condição de ser a última. Não voltaram a ter no grupo alguém com o seu olho de lince. Nunca falhou um tiro, nunca perdeu um alvo. A arma está pronta. Rogério coloca-a no chão, deita-se e aponta. Pela mira consegue ver o seu alvo, na proa, acompanhado de uma adolescente. Rogério não sabe quem são. Nunca fez perguntas. Não faz juízos. Cumpre ordens. O dedo que acaricia o gatilho prime-o sem aviso. Ao fundo, um homem cai fuzilado e um vestido salpica-se de sangue. Enquanto desmancha a arma, Rogério ouve a histeria da jovem, impávido. Fecha o estojo e guarda-o no carro. Arranca apressado. Hoje vai jantar com a filha e a esta hora já deve apanhar trânsito para atravessar a ponte…


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Ritual


Lá está ela, mais uma vez, na praia, completamente nua. Todos os dias o ritual repete-se. Mas quem será aquela mulher? Rui espreita por detrás das dunas, furtivo, atrevido. Ela desenha formas na areia com os dedos, lenta, provocadora. Rui deixa-se enfeitiçar e entrega-se de longe em segredo. Ela age com naturalidade como se esta praia existisse numa dimensão só sua. Dois personagens sós partilhando a mesma tela. A mulher levanta-se e espreguiça-se na direcção do mar. O sol atravessa-a e Rui vê agora a sua forma em contraluz. As curvas ousadas daquele corpo mais velho por quem sente desejo, curiosidade, ardor, pavor. A obsessão vira perfeição e medo aos olhos de um adolescente. Quem será aquela mulher? Ela vira-se para as dunas e revela a outra metade do seu corpo descoberto. Os catorze ávidos anos do Rui explodem num turbilhão de sensações que não controla. Os dedos cravados na duna, a respiração anelante, o corpo imóvel. Ela foi sua também hoje. O ritual repete-se...


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A Bicicleta que Fazia Sonhar


- Quem é vô?
- Quem é quem Afonso?
- Ali, aquele menino na bicicleta? – e aponta para uma fotografia amarelecida pelos anos.
- Ah, aquele menino é o teu pai quando tinha a tua idade.
Fernando tinha aprendido a andar muitas quedas depois do triciclo. A paixão fora-lhe passada pela mãe Alice, também ela uma apaixonada pela duas rodas desde sempre. Fernando experimentou a sensação várias vezes ainda bem aconchegado no ventre!
- Sabes Afonso, ainda hoje o teu pai adora aquela bicicleta. Com ela viveu muitas aventuras, conheceu outros lugares e olha, foi por causa dela que conheceu a tua mãe!
- É verdade! – interrompe a mãe Beatriz.
- Consegues imaginar o pai no dia em que se casou com a mãe a chegar à igreja de bicicleta?
- A sério mãe?! Que fixe!
- Pai, pai…dás-me a tua bicicleta? - pergunta Afonso todo entusiasmado.
- Também quero viver aventuras e conhecer o mundo!
- Não Afonso, não te posso dar a minha bicicleta filho.
- Porquê pai? – pergunta Afonso quase a chorar.
Fernando pega Afonso ao colo e limpa-lha as lágrimas:
- Mais tarde vais perceber que a realização dos nossos sonhos, as aventuras que vivemos e os sítios que conhecemos, somos nós que conquistamos!
Afonso sorri para o pai sem perceber muito bem o que ele lhe tinha dito:
- Sim pai…mas posso ficar com ela?

Foto e conto por Rita


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O Tesouro de Gabriel (Parte III)


Gabriel demora algum tempo a habituar-se à escuridão. No centro da gruta, forma-se uma imagem de um baú. "Aqui está!", exclama. Não obtém resposta. Gabriel olha em seu redor e não vê ninguém. As pegadas à entrada da gruta são apenas as dele. O baú está agora mais nítido. "Afinal há mesmo um tesouro..." Aproxima-se e abre a tampa, com cuidado. Gabriel não quer acreditar! No interior do baú, bem longe, muito para lá do fundo, estão os piratas que conheceu na praia. Ao lado também estão aqueles duendes da história que a mãe lhe costuma ler antes de dormir. E as estrelas, os planetas, os mares. Vê também a irmã, que sempre quis ter, a andar naquela bicicleta que pediu para o Natal. O baú não parece ter fim. De repente, desaparece tudo e fica apenas uma chave. Gabriel recolhe-a e fecha o baú. Vê uma janela na parede ao fundo da gruta. Roda a chave na pequena fechadura e abre-a, lançando-se no desconhecido.
Acorda no chão do quarto, estremunhado. A mãe entra de rompante. "Gabriel, caíste da cama outra vez!", diz-lhe enquanto faz a cama. Gabriel olha pela janela. Chove. Na palma da sua mão está a chave, a chave dos sonhos. A mãe aproxima-se dele e acaricia-lhe o cabelo.
 -"Tenho uma novidade para ti. Vais ter um irmão..."


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O Tesouro de Gabriel (Parte II)


Ao atravessar a praia, Gabriel apercebe-se que há muito mais gente à sua volta. Alguns piratas pescam, outros afiam as espadas, ainda outros reparam os pequenos escaleres de madeira. Ninguém parece reparar nele, excepto o grupo na fogueira.
 -"Dormiste como uma baleia!" - diz-lhe um dos piratas, passando-lhe um peixe para a mão. - "Então, onde está o tesouro?"
 -"O tesouro?"
 -"Sim, trouxeste-nos aqui para encontrar um tesouro."
Gabriel não quer acreditar. Tesouro? Ele? Quem são estas pessoas que o conhecem?
 -"Está do outro lado da ilha" - diz, sem saber porque o disse.
 -"Então de que estamos à espera?"
Os outros piratas levantam-se e começam a subir a falésia, seguidos pelo atónito Gabriel. Lá em cima percebem que a ilha é minúscula e que o outro lado é uma praia igual à de onde vieram. Gabriel desce o outro lado da falésia, seguindo decidido um propósito que desconhece. Apenas ele parece surpreendido pelo formato estranho da ilha.
 -"Chegámos!" - informa, parando em frente a uma gruta em tudo semelhante àquela onde acordou, minutos antes.
Sem hesitar, mergulham na escuridão.

(continua)


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O Tesouro de Gabriel (Parte I)



Gabriel acorda envolto num abraço de luz. O calor ténue do Sol acabado de nascer contrasta com o frio que se faz sentir à sua volta. Parece uma caverna. Areia no chão. Praia. Os raios de Sol que o despertaram entram por uma abertura nas rochas. "Onde estou e como vim aqui parar? Não me lembro de nada", pensa. Recorda-se que no dia anterior ficou acordado mais tempo, já depois de a mãe o ir deitar. Levanta-se e esfrega os olhos. A única saída é aquela ocupada pelo Sol e Gabriel atravessa-a sem receio, cego pela luz. Cá fora, um mundo inesperado apresenta-se perante os seus olhos. Ao largo, um galeão antigo está ancorado. No alto do mastro, a bandeira negra ondula inconfundível. "Não pode ser, estou a sonhar, os piratas não existem!"
 -"Gabriel, já acordaste? Estamos à tua espera!"
Surpreendido, Gabriel olha para a praia, onde um grupo de três corsários se reúne à volta de uma fogueira. "Mas, quem são? Como sabem o meu nome? Onde estou?"
 -"Despacha-te, a comida vai ficar fria!"
Instintivamente, Gabriel aproxima-se.

(continua)

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Infinito



Sempre que viajo sinto-me livre. Soa um pouco a cliché, mas a verdade é que viajar e ser livre são dois conceitos que só ganham significado quando são adoptados por alguém. Viajar tanto pode ser adormecer num continente e acordar noutro, como sair de casa e desta vez virar à direita em vez de ir pela esquerda. Mais que uma deslocação, viajar implica um estado de espirito, uma predisposição para usar os sentidos, para absorver, para sentir. No fundo, para crescer. Para mim, viajar é procurar ser livre. Esta liberdade aparece de várias formas, mas há uma que me é especial, que eu aprendi a encontrar. É a forma do infinito. Onde quer que vá, sinto-me livre sempre que vejo o infinito. Já o vi nos céus límpidos das noites do deserto, na curvatura da Terra vista através de uma janela de avião e no horizonte, ao fundo da vastidão imensa do mar. É nesse instante, em que vislumbro o infinito, que sou livre, porque encontrei algo que será sempre maior que eu.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Rio Meu


Sento-me e olho-te com ternura. Foi nas tuas margens, Tejo, que a minha vida mudou. Nessas margens onde aprendi que o mundo é muito maior que a herdade onde cresci. Foste tu que me mostraste o caminho da imensidão, a direcção do mar. Tu, sim tu, que albergas peixes, patos, barcos, que em ti tens vida e ensinas a viver, a querer, a lutar. Foi nas tuas lezírias que cruzei a minha infância, brincando com os teus afluentes. Foi sob a tua vigilância permanente que fiz e desfiz amizades, que me aventurei nos prados já distantes de casa. Foi em ti, Tejo, que eu aprendi o amor, esse aperto no peito, essa liberdade da alma. Foste tu que me deste um homem, que me casaste, que me permitiste ser feliz. Esse homem já cá não mora, disse que me esperaria, para não ter pressa. Mas tu, Rio, ainda moras neste quadro, nesta parede da casa que apadrinhaste. Tu e a felicidade. Eu e a saudade...


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Hora do Diabo



Daniel desliza cauteloso por entre as árvores. Embrenhado na floresta, segue de longe o ponto luminoso de uma lanterna, ténue, que apenas se distingue. À sua volta, a escuridão absoluta envolve-o e protege-o. De repente, a luz detém-se. Daniel aproxima-se, sem fazer qualquer ruído e esconde-se atrás de um arbusto. Numa clareira, um vulto move-se, recolhendo pequenos pedaços de lenha. Daniel vem seguindo aquele vulto desde a cidade. O riscar de um fósforo perturba o negro da noite e uma fogueira nasce, a medo. Um rosto revela-se e Daniel solta um grito abafado. Não é possível! O vulto afasta-se e tira uma galinha preta de um saco. Com uma destreza impressionante e sem qualquer ruído, uma lâmina corta o pescoço da galinha e deixa-a sangrar na fogueira. Daniel faz um esforço para aguentar o estômago. Ajeita-se no arbusto e fita aquele rosto, que já viu tantas vezes. De repente os seus olhares cruzam-se, por breves segundos, na escuridão. Foi descoberto. Daniel começa a correr, assustado, e tropeça num tronco, caindo no chão. Um ramo pontiagudo trespassa-lhe o peito. Agora é Daniel quem sangra. Faz um esforço para se levantar, mas não é capaz. A vista tolda-se, um vulto aproxima-se, a vida foge-lhe. "Não devias ter vindo aqui", diz-lhe uma voz doce. Daniel e a aflição de um gemido. Não é capaz. As forças abandonam-no. Lentamente, morre.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Arranca!



Um xaile azul. Numa qualquer rua de Alfama, chama-me a atenção um xaile azul, a enfeitar uma varanda. Talvez me chame a atenção pelo azul garrido, forte, a marcar a sua posição sem arrogância. Pergunto-me quem viverá ali. «Uma fadista talvez...» Afasto-me um pouco e espreito para dentro da casa. Através da janela consigo ver algumas peças de porcelana, de um padrão complexo que harmoniza com as cortinas de um modo perturbador. «Alguém com gosto arrojado», penso. «Alguém que outrora teve o mundo como quis, que o gozou e aproveitou, que não teve medo de ser diferente». Perco-me por momentos e tenho dificuldade em recordar-me para onde ia. Olho uma vez mais para o xaile, em jeito de despedida, em jeito de obrigado, e vejo uma figura na varanda. Calções, camisa de alças amarelada pelo uso duvidoso, bigode aparado e a gritar para o prédio em frente:
-"Ó Sérgio, quando é que me pagas o que me deves?"
Um gajo de Alfama... De repente lembrei-me para onde ia, e até ia com pressa... Arranca!

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Aninhada


Já está! Depois de muitas horas de sofrimento solene, estão cá fora os nove. Lia pode agora recostar-se, enquanto os gatinhos se atropelam, cegos, para saciar a fome. A mãe orgulhosa fecha os olhos de cansaço. Volta a abri-los e observa a ninhada, na sua fragilidade, a descobrir a vida. Uma onda de tristeza invade-a de súbito, transformando-se aos poucos em desespero. Lia ouviu os donos e sabe que este momento é efémero. É injusto para aquelas almas que ainda nem viram a sua progenitora, mas lá no fundo compreende. São muitos, os donos não podem cuidar de todos. «Sê positiva, sempre cuidaram bem de ti, também irão garantir o bem estar de todos eles», pensa enquanto os continua a observar, mas Lia é mãe, não se quer separar de nenhum. O olhar detém-se na cria mais próxima, curiosamente a última a sair, e que tanto trabalho lhe deu. Lia vê nela uma paz diferente, um sossego que a tranquiliza, uma inocência que perdurará. Com toda a gentileza de uma mãe, aconchega-o com a pata. «Tu não... Tu ficas.»


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Pão para a Solidão

Amanhece em mais um dia. António já vai longe no caminho que liga a sua casa ao moinho. Esse trilho que conhece de olhos fechados, que pauta a sua vida há talvez demasiado tempo. Mais que um trabalho, ser moleiro é agora um refúgio. Nesse dia que hoje amanhece, António chega ao cimo do monte. Dali vislumbra o seu moinho e, sentado nas escadas, um vulto de menino. Surpreso, aproxima-se. O menino levanta a cabeça.
- Olá senhor.
- Bom dia rapaz. O que fazes aqui a esta hora?
- Parei para descansar.
- E para onde vais?
- Não sei bem...
António abre a porta do moinho.
- Como te chamas?
- Rafael.
- Queres um pouco de pão, Rafael?
- Quero.
Enquanto prepara o pão, António observa o menino. Rafael não se move, não deixa de fitar o horizonte.
- Que procuras, Rafael?
- Um caminho.
- Esse aí em frente leva à minha casa.
- Não me serve. Está muito gasto.
António entrega um saco de pão ainda morno a Rafael.
- Obrigado senhor.
- Aqui não há outros caminhos, rapaz.
Rafael sorri e levanta-se. Despede-se com um aceno e contorna o moinho. António segue-o, curioso, mas o menino desapareceu. Lá atrás, nasce um caminho.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A Highlands' Tale



«For many centuries, Clan Kempie ruled the lands around Cape Wrath. Ferocious people they were, defending their territory. However, in 1769, a tremendous battle between rival clans slaughtered more than 1500 men, burying Warriors and pipers under these hills. It is rumoured that, as of today, in cold, cloudy and misty days, their wraths rise from the grounds to haunt those who dare to invade their lands. Several people who come to walk around here have seen them spirits. We are all doomed, doomed I tell you.»
A gravestone in memory of Clan Kempie lies just outside the narrow gravel road leading to the northwesternmost point of Great Britain. Stewart finishes the story with a gloom in his eyes. Suddenly, a naughty smile shows up.
- "No, I'm just talking rubbish! The stone was erected by two council workers to a third man, named Kempie, just for fun, while the three of them were here fixing the roads."
You have got to love the Scottish sense of humour...

Foto e conto por Pedro

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A Escada dos Sonhos


Os dois reconhecem-se de imediato. Passaram seis anos desde o último encontro, mas parece não ter passado um minuto sequer. Susana e o Mar saúdam-se com um sorriso. Ele estende-lhe a fiel escada, oxidada pela perseverança, e convida-a a entrar. Ela agradece. A brisa com odor a longe e sabor a sempre atravessa-a. Susana fecha os olhos e vê duas crianças que brincam na areia. Desce um degrau. Tapa os ouvidos e ouve risos inocentes de quem pensa ser dono do mundo. Outro degrau. Uma voz maternal chama de longe. Mais um passo. De mãos dadas, ela e o Rui partilham o lanche, enquanto fazem promessas no sol que se põe. Último degrau. A textura molhada da areia desperta Susana. Abre os olhos e o Mar beija-lhe os pés de mansinho. Em busca de perdão vieste, Susana. Aqui, onde a escada dos sonhos termina, tudo se sana, tudo se perdoa, tudo perdura. Ele não volta, não voltará. E tu, Susana? Algum dia te perdoarás?...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Impaciência




-"Põe aqui a mão, sente!", diz Elisabete à mãe. "O Tomás está-se a mexer!"
A mão da mãe no ventre da futura mãe. Aquela mão que já acarinhou muitas vindas ao mundo sente o movimento da vida que germinou, que cresce, que em breve nascerá.
-"Finalmente vamos ter um menino na família!"

Entretanto, na placenta...
-"Vais ter um menino vais, se querias tanto um rapaz ao menos davas-lhe nome de homem! Deixa-me crescer e vais ver para que lar vais de férias... Tenho que sair daqui, como é que se abre a porta? Já estou farto deste cubículo, nem uma janela, nem uma casa de banho. Líquido amniótico o tanas, que isto não tem autoclismo! No pasa nada aqui! Vou largar bolhinhas. Ao menos com as porcarias que tu comes, gás não me falta. E também já tiravas daí a mão, avozinha, que tá calor cá dentro. Irra, mal vejo a hora de deixar a vida de tamagotchi. Quando crescer vou ser marinheiro, percorrer os sete mares, só para não ter que vos ver a tromba. Avó, já disse para tirares daí a mão, porraaaa!"

-"Olha, deu um pontapé! Que coisinha mais fofa!"

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Lá em Cima



Lá em cima, na copa de uma árvore, vivia uma preguiça. Dessa copa, a preguiça via todas as outras copas à sua volta. Aquela era a árvore mais alta da floresta e, ali, a preguiça dormia. Às vezes também comia folhas, mas, na maioria das vezes, apenas dormia. Um dia decidiu aventurar-se pelas outras copas. De ramo em ramo, com movimentos pachorrentos, a preguiça foi percorrendo o alto da floresta. Pelo caminho, encontrou um macaco, que também vivia na copa de uma árvore. O macaco comia folhas, mas dormia pouco. Saltava de ramo em ramo com movimentos rápidos e ágeis e por isso já conhecia toda a floresta. A preguiça nunca saíra da sua copa mas, como era a mais alta e daí via todas as outras, achava que também conhecia. "Não, preguiça, a verdadeira floresta não se vê da copa", diz o macaco, desaparecendo em seguida. A preguiça acorda em sobressalto. Com o susto, desequilibra-se e aterra desamparada na folhagem mais abaixo. Ainda meio aturdida, recomeça a subir para o seu ramo, lá em cima, na copa da árvore mais alta da floresta.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Pó de Arroz


1939. Batalha de Brest. Narciso ajeita-se na trincheira. Pelo ar, voam granadas. À sua volta, o ruído ensurdecedor dos disparos. Ao longe, o troar dos canhões. "Raios partam a Guerra", pensa. "Isto está-me a dar cabo da pele!"
-"Arnaldo, toma aqui conta disto que eu tenho que ir arejar."
Arnaldo anui e assume o posto. Arnaldo acha que é o Rambo. Narciso dirige-se ao sofá das comunicações, tentando não pisar ninguém nem sujar as botas. Pega no telefone e liga ao esteticista da Companhia.
-"Nando, preciso de uma limpeza de pele."
-"Tenho livre às quatro."
-"Marca!"
Pousa o telefone. Suspira. Rebenta uma granada. Narciso tira do bolso um espelho e observa o rosto. "Que desagradável, estou cheio de terra!"
No regresso, encontra Arnaldo em dificuldades.
-"Ó Arnaldo, já estás sem um braço! É sempre a mesma coisa, não te posso deixar a tomar conta de nada."
Arnaldo encolhe o ombro e devolve um morteiro ao inimigo. Entretanto, o silvo da sirene soa na trincheira. Pousam-se as armas e lavam-se as mãos. É meio-dia, hora de almoço na Guerra.


quinta-feira, 19 de julho de 2012

Vestígios de Nós


Transpiro. Gotas de suor brotam, lentamente, das profundezas da minha pele. Os meses de verão na planície alentejana são impiedosos. Semicerro os olhos e levo o copo à boca. A textura adstringente aquece-me por momentos a boca. Se calhar o calor é do vinho. Levanto-me e aproximo-me da janela. Uma brisa gentil afaga-me o rosto. Lá fora, as searas douradas pelo Sol rodeiam a casa, conferindo-lhe o isolamento perfeito para os pecados que aqui ousamos. Vidas paralelas. A minha mulher cruza-me o pensamento. Ela não merece. Sinto novamente o suor a querer soltar-se. Se calhar o calor vem da culpa. Ela não merece, mas e eu, mereço ser prisioneiro dos meus erros? Sinto um braço que me envolve. Dou meia volta e deixo-me levar por um beijo profundo. Uma onda ardente percorre-me o corpo. Não, afinal o calor vem do coração. Abraçados, encaminhamo-nos para o quarto. Na mesa, atrás, ficam os copos vazios, testemunhos de volúpia, vestígios de nós.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Luminescências



Fengo achava-se diferente. Por muito que se esforçasse sentia que não pertencia àquele lugar. O seu irmão Lumi há muito tempo que tinha o seu emprego e a sua família. Até Lampi, a irmã mais nova, mal parava em casa desde que tinha namorado novo. Na cidade dos pirilampos, parecia que todos tinham encontrado o seu lugar menos Fengo. Minúsculos pontos luminosos cruzavam os céus num labor contínuo e nos parques as fosforescências viam-se sempre aos pares. "Aqui não há espaço para mim", dizia muitas vezes a Lucerno, o seu melhor amigo. "Não sejas tonto. E a Lizzi?". Sim, Lizzi tinha um dos mais belos resplendores da cidade, mas Fengo preocupava-se mais com o seu, que se tornava a cada dia mais ténue. Um dia, decidiu partir. Voou sem rumo definido, semanas a fio. Atravessou montes e vales, rios e lagos, silêncios e tempestades, sem sequer olhar para trás. Uma luminosidade intensa no horizonte deteve-o. Era diferente da sua e Fengo soube que tinha chegado. Tinha ouvido muitas histórias sobre a incandescência da cidade dos humanos. Fengo sobrevoou feliz a cidade, subindo e descendo, entre espirais vertiginosas e voltas mortais. Ali era diferente e tudo era diferente. Apaixonou-se pela luminosidade escaldante de um candeeiro de jardim e ali viveu, noite após noite, até que a sua luz se apagou. Ser diferente, no lugar certo, é bom.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Doçura


O cheiro a canela espraia-se pela cozinha. Na panela ao lume, o arroz borbulha em movimentos preguiçosos, com o vagar das coisas, que só as coisas têm. Lucinda agarra uma colher e mergulha-a na panela, remexendo o arroz em movimentos firmes e circulares. As suas mãos, há mais de meio século a segurar as rédeas da família, levam a colher à boca. "Está quase pronto", pensa com um sorriso. Desta vez saiu-lhe bem essa receita que atravessou gerações.
 - "Avó! Avó! Já está pronto?" A neta Susana irrompe pela cozinha.
 - "Está quase, minha filha", diz Lucinda pegando nela ao colo.
 - "Avó, porque é que o teu arroz é doce?"
Lucinda fita os olhos vivos e curiosos de Susana. Esses olhos que reflectem a inocência e a bondade que só se pode ter aos três anos. "A doçura está nesse olhar", pensa para si. O mesmo olhar, a mesma inocência que já tinha visto na filha e nos irmãos mais novos, que ajudou a criar. Num segundo, o pensamento foge-lhe através de décadas, em busca do que já não pode voltar.
 - "Então, é do açúcar!", responde por fim.
Um dia, mais para a frente, entenderás, Susana.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Despertar


                                                                

Abro os olhos. Num movimento que não controlo, as minhas pálpebras expõem-me à claridade. O meu corpo a subir as persianas e a dar-me os bons dias. Atordoado, fecho os olhos com força. Por entre mil e um pontos luminosos recupero gradualmente a consciência. Já dono de mim, volto a abri-los a medo. O clarão forte cega e magoa. A custo, distingo a forma dos meus braços, num fundo imenso de luz. Na mão direita, uma pulseira de plástico amarelo exibe um nome. Talvez o meu. Fecho novamente os olhos. Busco em mim o início de um pensamento, de uma linha de raciocínio, mas não encontro. As gavetas da memória também não guardam nada. Em mim, apenas o vazio. Abro os olhos determinado a suportar a dor. A minha perna treme ligeiramente. Mexo um dedo. Aos poucos, decidido, desperto, nu, para o mundo.